PIRUÇAS

Outubro 26 2008

O CM publica, na sua edição de hoje, uma interessante entrevista ao Dr Bagão Felix. Respigo dela as seguintes passagens, não só porque se reportam, com propriedade, ao título deste post, mas também à forma e ao modo como a nossa comunicação social se põe a jeito, sistematicamente, do poder político dominante.

Nota: os sublinhados são meus.

 

...

 

LO – O senhor foi condenado, enfim, em alguns casos condenado na praça publica, mais pelo seu Orçamento de Estado ou por pertencer ao Governo do doutor Santana Lopes?

 

BF - É uma boa questão, sabe. Eu não me arrependo nada do meu passado, não me arrependo de ter aceite o lugar de ministro das Finanças nesse Governo, não fiz nenhum sacrifico, não sou daqueles que me queixo das minhas decisões, só me queixo daquelas que tomo sem ser eu a tomá-las verdadeiramente, também acontece na nossa vida. Relativamente ao Governo do doutor Santana Lopes deixe-me dizer-lhe duas coisas. Em primeiro lugar, nos últimos treze anos o doutor Santana Lopes governou quatro meses, de finais de Julho a meados de Novembro, porque os outros foram de gestão. Parece que o grande problema do País foi esse buraco negro de quatro meses nos últimos treze anos em que os socialistas tiveram dez no poder.

 

LO – Doutor Bagão Félix: quatro meses memoráveis.

 

BF - Enfim, na sua opinião. Repare bem. Luís, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Admito que houve erros, claro que houve erros.

 

ARF – Muita trapalhada.

 

BF - Mas o que é que há agora? Imagine esta cena da pen, imagine eu, ministro das Finanças, a não saber no dia em que apresento o Orçamento a dívida pública em percentagem do PIB, ou o crescimento do investimento, o que é que diriam no dia seguinte, mesmo com os pastéis de nata oferecidos aos jornalistas. Imagine! Aí já não há trapalhadas.

 

ARF – Não há pastéis de nata grátis,

 

BF - Isto também tem a ver como as coisas são vestidas.

 

LO – Com o azar do Governo de Santana Lopes provavelmente os pastéis estariam estragados.

 

BF - No meu caso talvez fossem de Belém porque eu também tenho uma grande costela do Belenenses, além de benfiquista.

 

ARF – É costume.

 

BF - Deixe-me dizer-lhe só mais uma coisa sobre essa questão. Eu não tenho nenhuma procuração do doutor Santana Lopes, mas, por exemplo, neste caso das casas todos deram casas, isto é, proporcionaram o aluguer.

 

LO – Essa é uma grande verdade.

 

BF - Todos proporcionaram casas. Desde o doutor Sampaio ao doutor João Soares, o actual presidente etc.

 

LO- Começou tudo com Abecassis.

 

BF - O alvo é o doutor Santana Lopes. Imagine estas cheias que houve a semana passada em Sete Rios.

 

ARF – Os túneis.

 

BF - Por acaso o único que não teve cheias foi o do Marquês de Pombal. Imagine estas cheias e o doutor Santana Lopes não ter aparecido nesse dia, ou no dia seguinte, a ver. O doutor António Costa não apareceu, nada se passou. Eu percebo de facto que neste País...

 

ARF – Quer dizer que há uma cultura de esquerda, mesmo na Comunicação Social?

 

BF - Eu posso ter cometido muitos pecados, mas, de facto, ter feito parte do Governo do doutor Santana Lopes, como diz um amigo meu, não é currículo, é cadastro.

 

ARF – O que quer dizer é que a maioria da Comunicação Social é de esquerda e alivia a crítica e marca a direita?

 

BF - Claro, completamente, complacente. Estou a dizer isto em termos gerais. Mas isso é absolutamente visível. Sabe que há duas maneiras de fazer censura. Uma, que é visível e que é facilmente reprovável, e que era aquela que eu ainda assisti, o lápis azul. E há outra censura que é pela via da omissão. Às vezes não é pelas notícias que se dão. É pelas notícias que não se dão e pelos desenvolvimentos que não se fazem das notícias.

 

ARF – E que se matam os assuntos rapidamente.

 

BF - Claro. Os assuntos agora, quando há um problema é um cometa. Aparece num dia e desaparece no dia seguinte. São as notícias cometa. Não pegam.

 

ARF – E há outras que pegam muitas vezes.

 

BF - E há outras que pegam muitas vezes.

 

LO – Mas acha que isso tem a ver com uma estratégia colectiva da generalidade dos órgãos de comunicação social que são dominados por uma ideia de esquerda?

 

BF - Não. Vamos lá ver. Por aquilo que conheço, não é muito, mas por aquilo que conheço, apesar de tudo, se fosse feita uma votação, com urna secreta, a esquerda era francamente maioritária na comunicação social. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas cada um é o que é. É respeitável.

 

LO – Repare que os dois partidos de poder em Portugal, num certo sentido, são de esquerda.

 

BF - O PSD é de esquerda?

 

LO – Por exemplo, o actual Presidente da República, Cavaco Silva, foi um homem que, enquanto primeiro-ministro, economicamente, foi mais à esquerda do que o engenheiro José Sócrates, na minha opinião. Foi bastante mais estatista.

 

BF - Foi keynisiano, se quiser.

 

LO- Mais estatista. Nos costumes de direita.

 

BF - O Luís está a levantar uma questão muito interessante. Que eu próprio me questiono. Eu hoje, do ponto de vista económico e social, sobretudo social, esta distinção entre esquerda e direita não faz sentido. Eu, por exemplo, socialmente considero-me, à letra, à luz desses conceitos, considero-me de esquerda. Aliás, sendo um homem católico, que estuda profundamente a doutrina social da Igreja, que é notável. Se fosse ler, como eu li há dias, quadragésimo ano, a Encíclica de Pio XI, que fala das consequências da grande depressão, parece um discurso de hoje, parece-me uma Encíclica de hoje, é notável. Aí não tenho qualquer dúvida. Do ponto de vista político, económico e social, mas sobretudo a política económica, quase nada é feito por nós. Não temos política monetária própria, como é óbvio, não temos política aduaneira, a política orçamental é muito condicionada pelas regras de Bruxelas. Verdadeiramente, aí sim, onde a esquerda e a direita se distinguem é nos costumes, é nos valores, é no modo como vêem a sociedade. E aí, por exemplo, sou de direita, sou mais conservador. E é nesse sentido que eu acho que o PSD e CDS são de direita. E o PS, embora do ponto de vista de política económica e social não se distinga, nos costume é de esquerda, como se tem visto à saciedade.

 

ARF – No caso do Código Laboral, que está a ser discutido na Assembleia da República, o doutor passou de um reaccionário de direita a um homem de esquerda. Porque esta proposta do Governo vai mais à frente da sua.

 

BF - Não. Uma coisa é o Código do trabalho, que aliás tinha de ser revisto passados quatro anos, de acordo com a lei. E cada um tem a sua opinião. O que eu acho que foi violado foi sobretudo o código da memória. Quer dizer, quem disse o que disse há quatro anos no Parlamento, perante o Governo e perante mim, que era o ministro do Trabalho...

 

ARF – O actual ministro.

 

BF - O actual ministro e o actual partido que sustenta o Governo. Aquilo que disse, cobras e lagartos do Código do Trabalho, eu devo dizer que fico muito satisfeito por esta revisão ser minimalista. Porque, de facto, afinal de contas, não era assim tão mau quanto parece.

 

ARF – Deixaram cair algumas propostas que apresentaram.

 

BF - É claro também que o poder gera prudência e gera temperança às vezes, em alguns casos. Eu vejo isto como um cristão.

 

LO – Há quatro anos, antes de ter ficado com cadastro, era um homem considerado, de referência, respeitado pelos poderosos, pela elite, pela comunidade. Mas, de um momento para o outro, aparentemente ficou sozinho.

 

BF - Às vezes mais vale só do que mal acompanhado.

 

PERFIL

 

António José de Castro Bagão Félix nasceu em Ílhavo no dia 9 de Abril de 1948. Licenciado em Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa, foi ministro do Trabalho do Governo de Durão Barroso e das Finanças no curto Governo de Pedro Santana Lopes.

 


 

António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã / Luís Osório, Rádio Clube

publicado por poleao às 15:45

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